Blog do Buckeridge

Árvores versus paredes verdes

28 de janeiro de 2018
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Marcos Buckeridge e Giuliano Locosseli & Ricardo Cardim

email: msbuck@usp.br

A empresa Tishman Speyer  desmatou para um empreendimento residencial em 2013, 856 árvores de um terreno no Morumbi, na Zona Sul. Entre elas, espécies nativas, como cambuí, canela e pau-jacaré. Para poder derrubá-las, a construtora fechou, em 2009, durante a gestão Gilberto Kassab (PSD), um plano de compensação ambiental. Termo de Compensação Ambiental (TCA) do condomínio no Morumbi foi assinado em 2012, ainda na gestão do ex-prefeito Gilberto Kassab (PSD), e previa como contrapartida pelo corte de quase 900 árvores a conversão de 26.281 mudas de árvores compensatórias, equivalentes a cerca de R$ 13 milhões, em obras para instalação de quatro parques lineares na zona sul: Horto do Ipê, Paraisópolis, Morumbi Sul e Itapaiuna. Na Gestão Haddad, esse passivo foi trocado por jardins verticais no Minhocão e em 23 de maio de 2017, tudo com um mesmo prestador de serviços, uma empresa chamada “Movimento 90°”.

Uma ação da prefeitura de São Paulo no sentido de usar paredes verdes para esta compensação, ao invés de plantar árvores, suscitou uma série de questões da comunidade sobre se as paredes verdes valem mais ou menos do que as árvores urbanas. Não há como negar que paredes verdes são estruturas de grande apelo estético e que também produzem serviços ambientais. Portanto, são bem-vindas nas cidades. A questão é se podem substituir árvores cortadas.

A reposta a esta questão é complexa, pois os serviços de uma parede verde e de um conjunto de árvores pode depender da combinação de espécies que são plantadas em um jardim vertical, enquanto as árvores são plantadas em terra firme.

Para poder comparar jardins verticais e árvores urbanas, podemos considerar dois elementos importantes, o acúmulo de carbono –tema significativo em tempos de mudanças climáticas globais – e nos serviços ambientais, os benefícios que a vegetação proporciona para a qualidade vida e saúde da população. Estes serviços incluem diminuição de temperatura, aumento de umidade no ar, redução de material particulado no ar, recarga de lençóis freáticos, entre outros.

Uma das grandes árvores comuns na arborização urbana em São Paulo, a tipuana, presente em locais como a Alameda Santos, por exemplo, pode pesar até 20 toneladas. Se assumirmos que em média há 30% de água na sua madeira, teríamos 14 toneladas de biomassa no tronco. Geralmente as folhas representam muito pouco (cerca de 5%) e as raízes cerca de 30% do todo da planta. Portanto, o principal armazenamento de carbono em uma árvore está no tronco.

A composição da madeira é principalmente de celulose que, como lembramos da escola, é composta de açúcares, cuja fórmula é C6H12O6. Se usarmos o conhecimento sobre os pesos atômicos que aprendemos na escola (e achávamos que nunca iríamos usar), podemos dizer que as glicoses da celulose teriam 12×6 carbonos (=72), 1×12 hidrogênios (=12) 6×16 oxigênios (=96). Com estes números, podemos calcular a proporção aproximada de carbono em um tronco de árvore, o que dá 40%.

Assim, um tronco de uma tipuana de 20 toneladas teria 5,6 toneladas de carbono.  Tudo isto armazenado em cerca de 60 anos de vida, o que mostra que uma árvore destas armazena em média 93 Kg de carbono para cada ano de vida. Como temos cerca de 650 mil árvores nas ruas da cidade de São Paulo, tivemos nos últimos 60 anos um armazenamento médio de 36 milhões de toneladas de carbono.

É possível calcular o serviço ambiental, em termos de carbono armazenado, também por habitante. Cada um de nós vale aproximadamente 4 toneladas de carbono neste cálculo.

No quesito água, se assumirmos que cada árvore libera 400 litros de água em forma de vapor para a atmosfera por dia, em um ano serão 146 mil litros. Assim, as nossas 650 mil árvores produzem 95 trilhões de litros por ano, o que dá 7.900 litros por habitante por ano.

Há outros serviços ambientais que as árvores trazem, como diminuição da temperatura, interferência na poluição (tanto por absorver como por reter na superfície das folhas), bloqueio do som, ajuda na formação de nuvens, atração de pássaros e de uma série de outras espécies de animais e microorganismos.

Os cálculos acima são aproximados, pois há árvores de diferentes tamanhos e diferentes espécies na cidade. Mas eles dão uma ideia geral do que temos e do potencial para o futuro se plantarmos mais árvores.

Outro dado importante sobre as árvores: uma muda dentro dos padrões exigidos pela prefeitura custa em média R$ 150 (em 2017) e apesar de termos que cuidar da muda nos primeiros meses, assim que a muda se estabelece, ela passará a vida usando água da chuva e exigindo pouca manutenção (p.ex. poda no caso de ter sido plantada em conflito com a fiação elétrica ou edificações).

Outro dado importante é a área ocupada. A copa de uma árvore adulta de tipuana pode ocupar até 36 m2 de área de superfície. Temos que lembrar, porém, que este espaço ocupado no chão corresponde a um grande volume com um enorme número de folhas, sem falar do tronco dos galhos, alguns deles com diâmetro que se assemelha a uma árvore mais jovem.

Agora vamos examinar as paredes verdes.

A primeira coisa a saber é que as espécies utilizadas são principalmente de plantas pequenas como samambaias, manjericão, alecrim, orégano e outras.

Em relação ao carbono, as paredes verdes perdem de longe para as árvores, pois as primeiras são predominantemente folhas, que são partes das plantas que possuem bem mais água (98% em média) e por isto relativamente pouco carbono.

A biomassa de folhas de um trecho de parede verde de 36m2 pode chegar no máximo a alguns quilos. Assim, em qualquer situação a parede verde perfaz uma fração ínfima do carbono que seria armazenado em uma árvore, que é de 5,6 toneladas. Para se ter uma ideia melhor, é importante lembrar que a copa de uma árvore tem um enorme número de folhas. Na copa de uma tipuana grande, que encontramos praticamente em todo bairro arborizado da cidade de São Paulo, pode haver cerca de 22 mil folhas. Cada folha tem cerca de 140cm2, de forma que uma árvore teria uma área de folhas de 300 m2. A explicação para uma área tão grande em uma única copa é que as folhas da copa preenchem uma grande esfera.

Para comparar com a parede verde, pensemos em uma área similar a área basal (área de sombra projetada no chão com sol á pino) que uma copa preenche (36m2).  Neste trecho de parede com plantas pequenas com cerca de 4 camadas de folhas, a área foliar seria de cerca de 150 m2.

Uma árvore, portanto, teria cerca de 2 vezes mais folhas que uma parede de herbáceas. Há certamente um serviço ambiental fornecido pelas folhas de uma parede verde, produzindo vapor de água e contribuindo esteticamente para a cidade. Porém, se analisarmos somente as folhas, em uma árvore teríamos um benefício cerca de 2 vezes maior.  Mas é importante lembrar que a parede verde não tem tronco, mas praticamente só folhas. Uma única árvore adulta, portanto, tem 5,6 toneladas de carbono a mais que uma parede verde com a uma superfície de ocupação semelhante (36m2).  No quesito carbono, portanto, o benefício de árvores é incomensuravelmente maior do que uma área equivalente em folhas, de uma parede verde.

Samambaias e herbáceas das paredes verdes são grupos de plantas que demandam grande quantidade de água para crescer de forma que, no caso das paredes verdes, é necessário fornecer água todo o tempo para manter a parede viva. Ainda que parte desta água possa vir da chuva, durante o inverno o sistema terá que ser irrigado, pois chove muito pouco. Já as árvores têm mecanismos que as permitem sobreviver na estação seca e não precisam de irrigação, a não ser quando muito jovens.

Considerando um custo de cerca de R$ 800 por m2 para paredes verdes (em 2017), o uso de árvores tem um custo bem menor. Representam um investimento de R$ 4 por m2 para uma muda de R$ 150. Mas também devemos lembrar que ao passo que a parede verde passará a fornecer serviços ambientais em alguns meses, a árvore levará 10-15 anos para começar a prestar serviços significativos em termos de armazenamento de carbono, produção de vapor de água e interferência efetiva na poluição. Não sabemos ainda qual a vida útil de uma parede verde, mas certamente será menor do que o das árvores, pois as plantas usadas nas paredes verdes têm vida bem mais curta do que as árvores.

Jardins verticais são sistemas dependentes de tecnologias de suporte, nutrição e irrigação, portanto, de cuidadosa manutenção. A comparação com “um paciente na UTI” faz bastante sentido, bastando uma falha nos sistemas para o jardim vertical perecer. Mesmo com o plano estendido de manutenção apregoado pela prefeitura em 2017, não será fácil a vida dos jardins verticais nos médio e longo prazos. Se sequer as árvores são cuidadas historicamente na metrópole paulistana, gerando acidentes todo o verão, como será a vida útil destes jardins verticais em 5, 10 anos? Em comparação, uma árvore com essa idade está em pleno vigor, indo em direção à maturidade e normalmente sem necessidade de manutenções constantes e onerosas.

 

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O VERDE EM SÃO PAULO III

31 de janeiro de 2014
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A cidade deve revitalizar suas áreas de várzea, como ocorreu em grandes capitais do mundo, ou é algo caro e inviável tecnicamente?

Se já foi feito em outras grandes capitais do mundo (Londres e Paris por exemplo), não há qualquer dúvida de que seja tecnicamente viável. São Paulo tem grande vocação para negócios e as pessoas que vêm para cá recebem uma lavagem cerebral dos próprios paulistanos de que esta é uma cidade feia, cinza, cheia de trânsito, violenta etc etc. Sabemos que é não é inteiramente verdade, mas quando uma ideia é contada repetidamente acaba sendo vista como verdade. Ter uma cidade organizada, arborizada e com projetos impressionantes de integração das áreas de várzea com a população pode atrair ainda mais negócios e fazer com que o turismo de negócios deixe ainda mais dinheiro na nossa cidade. O turista pode decidir trazer a família para visitar a cidade e com isto gastar mais aqui. Os próprios paulistanos ficarão mais na cidade a aproveitarão melhor São Paulo. Se prevê que até 2050, 90% da população da América Latina viverá em ambiente urbano. Por isto temos que fazer com que a cidade seja um lugar agradável de se viver. Elas não podem ser apenas dormitórios e um conjunto de ruas para transitarmos para ir e vir do trabalho. Têm que ser mais do que isto e é nossa responsabilidade fazer com que as mudanças ocorram nas próximas décadas. Do ponto de vista da população, os benefícios da recuperação das várzeas são enormes. Esta cidade é uma rede impressionante de rios e apesar de São Paulo ter sido fundada nesta região por causa dos rios, com o desenvolvimento nós viramos as costas para eles, os cobrimos e os poluímos. Escolhemos um caminho que levou ao realinhamento dos rios para fazer a água fluir mais rápido e evitar epidemias de doenças infecciosas no passado. Mas hoje temos tecnologias que poderiam fazer com que voltássemos em parte ao que tínhamos no passado. Veja uma reportagem da revista FAPESP sobre os rios em São Paulo. Milhões de paulistanos saem nos feriados em busca de proximidade a um ambiente aquático. Temos parte disto aqui mesmo, bem debaixo nos nossos pés. Por quê não usar? Pode ser caro, eu sei, mas por quê não vivermos bem? em um lugar lindo, com lazer pleno e uma população mais feliz? Ainda, será que tudo isto não poderia ser transformado em negócios lucrativos? Em inovação? Essencialmente, São Paulo é uma espécie de grande várzea. Será que São Paulo não poderia recuperar a parte boa da várzea? Será que não poderíamos fazer isto de uma forma original, que mostrasse que é sim possível fazer melhor ainda do que Londres e Paris fizeram?


O VERDE EM SÃO PAULO II

30 de janeiro de 2014
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Devemos enterrar os cabos elétricos e de informação? Isto seria uma necessidade pública?

Sem dúvida é uma necessidade pública. Talvez não seja economicamente viável tirar os fios de toda a cidade, mas podemos ampliar o máximo possível o pouco que já temos. Enterrar os fios tornará não somente mais fácil a manutenção, provavelmente diminuindo a taxa de roubo de cabos e certamente diminuindo os diversos problemas que temos tido com a arborização urbana, que tem que ser literalmente mutilada para dar passagem aos fios. Ao se mutilar uma árvore, se desequilibra muitas vezes a distribuição de pesos na copa e com isto se aumenta probabilidade de queda. Acelera-se o envelhecimento das árvores, gerando custos altos relacionados à substituição de árvores com maior frequência. Além disso, transforma-se algo belo em algo feio, na realidade grotesco! Sem os fios, as copas de árvores crescem de acordo com as suas características genéticas e se tornam copas bem mais estáveis e também exuberantes. Basta olhar ao redor, há vários exemplos na cidade. Um outro ponto que acho fundamental é a poluição visual. Por quê, nós paulistanos precisamos conviver com algo tão feio? Por quê a nossa cidade não pode ser bonita e agradável? Uma paisagem agradável tem enorme vantagens de vários pontos de vista como diminuição de depressão e violência, diminuição da agressividade e também convida o cidadão a usar menos o automóvel para caminhar por seu bairro. Os ciclistas poderiam aproveitar ainda mais as rotas sem o calor escaldante de avenidas sem árvores. Por isto acho que o efeito do embelezamento é, sim, uma necessidade pública. Como política pública, o embelezamento é também uma ação nos setores de saúde, segurança e educação. O poder público deve investir em tudo o que aumente o bem estar da população. É para isto que pagamos impostos.


O VERDE EM SÃO PAULO I

28 de janeiro de 2014
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Podemos viver melhor em São Paulo?

Um estudo recente (Runfola & Hughes, janeiro de 2014 na revista Land) comparando cidades “verdes” e “cinza” entre 373 cidades americanas, concluiu que as cidades que têm maior foco em iniciativas econômicas são mais cinza enquanto as cidades que têm maior foco em iniciativas de justiça social são mais verdes. Estas últimas, no entanto, são mais raras, perfazendo somente 11% das cidades analisadas pelos autores.  São Paulo tem agido historicamente como uma cidade cinza, mas é possível mudar. Basta a população exigir um redirecionamento das políticas públicas.

Por conta do aniversário de 460 anos da cidade de São Paulo recebi algumas perguntas do repórter Eduardo Geraque, da Folha de São Paulo, questionando alguns pontos chave sobre a situação ambiental da cidade de São Paulo. Numa sequência de três posts publicarei as respostas que dei a ele.

Parques e praças públicas: o setor privado deve interferir?

O setor privado deve sim participar e a ideia de concessões pode ser um caminho. Isto porque o poder público tem grande dificuldade de dar conta de tudo o que precisa ser feito em uma cidade tão grande como São Paulo. O poder público poderia se restringir a fazer a coordenação de todo o processo, sempre ouvindo e mantendo transparência total para os habitantes de cada região. A cidade de São Paulo é um mosaico de situações com características muito diversas e por isto precisa de estudos específicos para cada caso. São Paulo se apresenta como uma grande oportunidade de desenvolver novas ideias e empresas podem ser instaladas e/ou criadas aqui, dando empregos e gerando inovação no setor urbano paulistano. Como São Paulo é uma metrópole única, projetos de sucesso daqui poderiam até se tornar produtos a serem aplicados em outras cidades do mundo. Não creio que seja possível abordar toda a cidade de uma única forma, com um único método. Como cada região tem suas peculiaridades, seria muito mais produtivo darmos concessões a empresas que se dediquem a resolver os problemas de forma diferente, conforme a situação. Um problema, porém, é saber se temos ou não empresas preparadas para assumir isto. Assim, primeiramente teríamos que fazer um bom levantamento. Algumas experiências tiveram grande sucesso na cidade de São Paulo, como a intervenção que foi feita na Av. Braz Leme há alguns anos pela empresa TOTUS. Parte da avenida foi adotada pela empresa e passou de um simples canteiro no meio da rua a um dos lugares mais agradáveis da cidade para caminhar, se exercitar e admirar um jardim bem planejado e bem cuidado. Há vários outros exemplos na cidade que podem ser usados como exemplos para regiões similares. O poder público poderia fazer é um estudo bem completo sobre como grandes cidades em países desenvolvidos lidaram e lidam com o verde urbano (o verde nos parques, praças, ruas etc). Washington, nos EUA, Paris na Europa e Tóquio e Pequim na Ásia são boas opções. Podemos formar parcerias com cidades como estas para ajustar melhor a nossa situação aqui. Empresas estrangeiras poderiam também se interessar pelas concessões e com isto poderíamos aprender muito e adaptar boas experiências do mundo à nossa realidade. Se o poder público quiser levar a frente a questão do verde-urbano, isto deveria ser feito através de algo como um Centro de Estudos, que possa analisar o problema cientificamente e trabalhar em conjunto com empresas, população e cidades parceiras, para aplicar as melhores ideias. São Paulo é a maior metrópole do planeta em região tropical. Não deveríamos ter as soluções mais espetaculares já vistas? Temos que ser ambiciosos e investir. O meu sonho é que os turistas um dia viessem à São Paulo só para ver os projetos mais criativos e interessantes de integração do verde à população já feitos por uma grande metrópole.