Blog do Buckeridge

Série Inteligência em Plantas – 6

25 de julho de 2016
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Neste artigo discuto como a inteligência nas plantas funciona na forma de redes complexas.

REDES VEGETAIS DE INTELIGÊNCIA ?

Marcos Buckeridge

O funcionamento das redes de internet é um bom parâmetro para comparar com o processamento de informação e a inteligência das plantas. A internet é uma rede hierárquica, ou seja, há hubs mais importantes do que outros. Estes pesos diferentes conferem a hierarquia ao sistema da internet. A hierarquia é importante pelos seguintes motivos: o primeiro é o fato de haver hubs que, de uma certa forma, coordenam outros hubs menos importantes e fazem com que a rede seja mais vulnerável. Isto porque, se um hub de alta patente na hierarquia for afetado (desligado, por exemplo), uma grande parte da rede pode ser desligada e prejudicar seriamente o sistema como um todo. Uma outra característica importante de uma rede hierárquica é que a informação processada por um hub de alta patente também pode funcionar como uma rede eficiente para o processamento de informações. Já temos evidências que as redes nas plantas são hierárquicas, de forma que o processamento da informação poderia ser comparado com a rede da internet. Em outras palavras, as redes hierárquicas que integram a informação nas plantas provavelmente têm a mesma fragilidade (certa vulnerabilidade ao ataque), mas por outro lado a mesma eficiência em hierarquizar informações. Mas há diferenças. Por exemplo, no caso das plantas (dos seres vivos complexos em geral) as redes apresentam diversos mecanismos que lhes conferem robustez, o que quer dizer que processos hierárquicos muito importantes podem apresentar blindagem ou então redundância, de forma que um ataque não seria capaz de inviabilizar todo o organismo.

Só que há uma diferença importante entre as redes da internet e a das plantas. A internet é uma rede hierárquica, mas não toma decisões, enquanto a planta toma. Portanto, há algo mais nas redes vegetais. Um dos elementos é um programa basal (escrito no DNA) que determina o comportamento e evita que a resposta da planta seja aleatória e simplesmente siga toda e qualquer variação interna que ocorra. A internet não tem um programa interno tão complexo como os seres vivos e por isto pode evoluir e se adaptar muito mais rápido. Isto pode ser positivo, quando pensamos na internet, mas para um ser vivo se adaptar a toda condição que aparece muito rapidamente pode gerar vulnerabilidade, já que para isto, uma planta teria que ter capacidade de gerar uma mudança correspondente em seu programa interno. Pelo que sabemos, isto não acontece, pois a evolução ocorre por mutações ao acaso e qualquer mudança no programa interno exige muito mais tempo.

Nas plantas, o funcionamento em redes tem íntima relação com a propriedade de inteligência. Isto porque ao olhar as plantas através desta lente de processamento da informação em redes, podemos entender como os processos decisórios ocorrem nelas. Estivemos limitados para usar este tipo de abordagem até recentemente em ciência por falta de técnicas que permitissem obter e processar grandes quantidades de informação a partir das plantas. Mas agora, com o advento das técnicas que chamamos de “ômicas” (genômica, transcriptômica, proteômica, metabolômica, glicômica, fenômica) que incluem não só a capacidade de gerar os dados, mas de analisa-los computacionalmente (a bioinformática), temos como catalogar uma enorme quantidade de informação e usar as ferramentas da computação biológica para entender as redes que fazem os vegetais funcionarem. Em outras palavras, temos agora melhores condições de entender como funciona a inteligência das plantas. A importância desta área de pesquisas é enorme, pois a humanidade depende inteiramente das plantas para tudo: ambiente, comida, materiais, remédios etc. Se entendermos como as redes funcionam, nós poderíamos estabelecer melhor “comunicação” com elas e poderíamos manipulá-las através de modificações em seus genomas. Com isto, teríamos condições de evitar perdas na produção de alimentos por problemas climáticos, melhorar a qualidade dos nossos alimentos e ainda criar novas plantas que sejam capazes de se adaptar a regiões onde elas ainda não chegaram, como os polos, os desertos e até outros planetas.

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O VERDE EM SÃO PAULO I

28 de janeiro de 2014
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Podemos viver melhor em São Paulo?

Um estudo recente (Runfola & Hughes, janeiro de 2014 na revista Land) comparando cidades “verdes” e “cinza” entre 373 cidades americanas, concluiu que as cidades que têm maior foco em iniciativas econômicas são mais cinza enquanto as cidades que têm maior foco em iniciativas de justiça social são mais verdes. Estas últimas, no entanto, são mais raras, perfazendo somente 11% das cidades analisadas pelos autores.  São Paulo tem agido historicamente como uma cidade cinza, mas é possível mudar. Basta a população exigir um redirecionamento das políticas públicas.

Por conta do aniversário de 460 anos da cidade de São Paulo recebi algumas perguntas do repórter Eduardo Geraque, da Folha de São Paulo, questionando alguns pontos chave sobre a situação ambiental da cidade de São Paulo. Numa sequência de três posts publicarei as respostas que dei a ele.

Parques e praças públicas: o setor privado deve interferir?

O setor privado deve sim participar e a ideia de concessões pode ser um caminho. Isto porque o poder público tem grande dificuldade de dar conta de tudo o que precisa ser feito em uma cidade tão grande como São Paulo. O poder público poderia se restringir a fazer a coordenação de todo o processo, sempre ouvindo e mantendo transparência total para os habitantes de cada região. A cidade de São Paulo é um mosaico de situações com características muito diversas e por isto precisa de estudos específicos para cada caso. São Paulo se apresenta como uma grande oportunidade de desenvolver novas ideias e empresas podem ser instaladas e/ou criadas aqui, dando empregos e gerando inovação no setor urbano paulistano. Como São Paulo é uma metrópole única, projetos de sucesso daqui poderiam até se tornar produtos a serem aplicados em outras cidades do mundo. Não creio que seja possível abordar toda a cidade de uma única forma, com um único método. Como cada região tem suas peculiaridades, seria muito mais produtivo darmos concessões a empresas que se dediquem a resolver os problemas de forma diferente, conforme a situação. Um problema, porém, é saber se temos ou não empresas preparadas para assumir isto. Assim, primeiramente teríamos que fazer um bom levantamento. Algumas experiências tiveram grande sucesso na cidade de São Paulo, como a intervenção que foi feita na Av. Braz Leme há alguns anos pela empresa TOTUS. Parte da avenida foi adotada pela empresa e passou de um simples canteiro no meio da rua a um dos lugares mais agradáveis da cidade para caminhar, se exercitar e admirar um jardim bem planejado e bem cuidado. Há vários outros exemplos na cidade que podem ser usados como exemplos para regiões similares. O poder público poderia fazer é um estudo bem completo sobre como grandes cidades em países desenvolvidos lidaram e lidam com o verde urbano (o verde nos parques, praças, ruas etc). Washington, nos EUA, Paris na Europa e Tóquio e Pequim na Ásia são boas opções. Podemos formar parcerias com cidades como estas para ajustar melhor a nossa situação aqui. Empresas estrangeiras poderiam também se interessar pelas concessões e com isto poderíamos aprender muito e adaptar boas experiências do mundo à nossa realidade. Se o poder público quiser levar a frente a questão do verde-urbano, isto deveria ser feito através de algo como um Centro de Estudos, que possa analisar o problema cientificamente e trabalhar em conjunto com empresas, população e cidades parceiras, para aplicar as melhores ideias. São Paulo é a maior metrópole do planeta em região tropical. Não deveríamos ter as soluções mais espetaculares já vistas? Temos que ser ambiciosos e investir. O meu sonho é que os turistas um dia viessem à São Paulo só para ver os projetos mais criativos e interessantes de integração do verde à população já feitos por uma grande metrópole.


Vantagens de ter árvores na cidade

3 de setembro de 2013
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Temperaturas mais amenas

Árvores diminuem a incidência da luz em mais de 90%, diminuindo a temperatura e a incidência de luz direta sobre quem caminha ou se exercita debaixo delas. Áreas com mais árvores, em São Paulo, por exemplo, podem ter a temperatura até 10oC abaixo de áreas não arborizadas no mesmo horário.

Umidificadores gigantes

Pare entender este efeito, lembremos o que acontece se colocarmos um ramo de qualquer planta em um saco plástico fechado. Em pouco tempo veremos água sendo condensada. Se deixarmos para olhar no outro dia praticamente nem veremos mais o ramo, de tanta condensação dentro do saco plástico. Este é um fenômeno chamado de evapotranspiração.  Sabe-se que uma única árvore de carvalho pode transpirar 150 mil litros em um ano, ou seja, uma média de 0,5 litro de água por dia.

Os estoques de água na atmosfera são tremendamente desiguais. Os oceanos, geleiras e outros corpos d´água em terra correspondem a 90% da água enquanto a evapotranspiração lida com apenas 10% da água do planeta. Em cidades como São Paulo, a maioria da superfície encontra-se impermeabilizada (com asfalto e edificações), de forma que as árvores funcionam como uma forma de reter vapor de água na atmosfera. Isto e especialmente importante no inverno seco no sudeste do Brasil.

As árvores que vemos todos os dias ao circularmos pelas cidades funcionam como umidificadores gigantes porque abrem diariamente trilhões de poros (os estômatos) em suas folhas e é através deles que água sai para a atmosfera em forma de vapor. Se o solo estivesse limpo ou todo asfaltado, o índice de evaporação seria máximo, diminuindo o tempo de residência de uma molécula de água na superfície para a ordem de minutos. Por outro lado, uma molécula de água absorvida por uma árvore  terá que seguir um caminho extremamente longo por entre as células e tecidos do vegetal até chegar à atmosfera.  O resultado é que, uma molécula de água poderá então levar dias ou até semanas antes de conseguir sair para a atmosfera.

Saúde

O aumento esperado na temperatura esperado com as mudanças climáticas globais poderá causar vários tipos de enfermidades, incluindo infecções se a temperatura estiver combinada com alta umidade e passar de um determinado limiar. Gastaremos uma verdadeira fortuna para equipar e manter hospitais e serviços médicos para a proporção maior de idosos que deveremos ter em maior proporção no Brasil por volta de 2050. Com o plantio de árvores agora e de forma estratégica, podemos garantir  a minimização dos impactos negativos causados pelo aumento de temperatura nos próximos 20-30 anos.

Pessoas que vivem em cidades arborizadas têm menor tendência ao estresse e à depressão, o que equivale a dizer que uma cidade arborizada seria mais tranquila e mais feliz. Se considerarmos os gastos que não teremos para tratar de enfermidades resultantes do estresse, temperatura e depressão, seríamos também coletivamente mais ricos e mais saudáveis.

 Plantando árvores na cidade

O plantio de uma árvore deve ser algo planejado. É preciso pensar bem e, principalmente, aprender mais sobre árvores. Em primeiro lugar é preciso conhecer o máximo sobre a espécie que se quer plantar. É uma planta de sombra ou de sol? Cresce rápido ou lentamente? Qual o tamanho final? Como tem que ser podada enquanto cresce? Como se comportam as raízes e ramos? Qual a densidade da madeira? Perde total ou parcialmente as folhas? Quando dá flores? Os frutos são muito pesados? Quais os tipos de doenças que elas apresentam?

Tudo isto é importante para que se acompanhe o desenvolvimento da árvore desde a germinação até a morte. E isto quer dizer que não adianta sair por aí jogando sementes e plantando árvores de qualquer tipo em qualquer lugar.

É preciso, portanto, planejar antes de plantar uma árvore. Tão importante quanto a ação de plantar é a de adquirir a responsabilidade sobre ela, o que significa acompanhar o desenvolvimento, podar, adubar etc. Na cidade de São Paulo, esta responsabilidade é da prefeitura e ela irá investir nisto dependendo da demanda que a população fizer. Para isto é preciso prestar mais atenção às árvores, conhece-las melhor e acompanha-las. Deve-se informar a prefeitura sobre isto e exigir que um planejamento completo seja feito, divulgado e executado.  Deve-se exigir do poder público seriedade no tratamento da arborização urbana, pois ela interfere na saúde, bem estar e nos negócios da cidade.

Opinião dos habitantes de cidades americanas sobre as árvores

Uma pesquisa americana em que 5 mil habitantes foram consultados sobre as razões pelas quais cidades devem ter árvores, mostro que os sete pontos principais em 112 aglomerados urbanos são:

1)   sombra e rebaixamento da temperatura

2)   manter as pessoas mais calmas

3)   ser capaz de diminuir a poluição em áreas com algo tráfego

4)   reduzir o ruído

5)   plantadas em áreas de comércio fazem pensar que os donos se preocupam com o ambiente

6)   fazem um barulho interessante quando se pisam nas folhas

7)   atraem a fauna silvestre

Sobre os problemas que a presença de árvores na cidade pode causar há uma lista abaixo com repostas (minhas) entre parênteses:

1)   podem causar alergias (é só aumentar a diversidade de espécies)

2)   bloqueiam anúncios de negócios (use a árvore para valorizar seu negócio)

3)   as raízes danificam as calçadas (já se conhecem espécies que não têm este problema)

4)   caem sobre fios (enterremos os fios – a cidade ficará muito mais bonita)

5)   dificultam a detecção de condutas criminosas (use boa iluminação pública)

6)   gotejam açúcar (gutação) sobre os carros estacionados na rua (lave o carro de vez em quando, precisamos de menos carros nas ruas de qualquer forma)

7)   ficam horríveis quando não são bem cuidadas (é para isto que serve poda e manutenção – cobre a sua subprefeitura)

8)   custam muito para a cidade (os problemas de saúde, feiura e diminuição nos negócios causados pela falta de árvores custam muito mais)

Imagem

Proteção de árvore jovem na cidade de Tóquio, Japão

Há vários bons exemplos a seguir. Um deles é o da cidade de Washington, capital dos Estados unidos. Em Washington, a cidade mantém um mapa das árvores  e se pode obter informações a respeito delas (veja em http://caseytrees.org/resources/maps/dc-street-trees/).  Outro é a cidade de Nova York, onde há inúmeros serviços relacionados às árvores, incluindo plantio, cuidados, informações sobre as espécies e muito mais (http://www.nycgovparks.org/trees).  Em Paris, as árvores fazem parte da história da cidade. Para ler a respeito, pode-se começar pelo artigo em (http://www.deeproot.com/blog/blog-entries/history-of-street-trees-in-pariscity-making-and-the-golden-age-of-the-boulevard). Depois pode-se seguir pelos demais artigos e entender cada vez mais como as árvores se encaixam na história da França e da Cidade Luz.  Mas se preferir buscar as posições e nomas das árvores em Paris, visite o site da prefeitura da cidade em http://www.govdata.eu/samples/paris/parisarbreseu.html

Reclamações das podas em Tóquio (http://s-araki.com/HP-E.htm),

Em São Paulo, um programa de contagem de árvores foi lançado em 2010 pela prefeitura, mas precisa ser continuado e ampliado de uma forma mais enfática para que a população entenda que este é um ponto importante para o futuro da nossa cidade.

Mas mesmo que as prefeituras assumam uma parte desta responsabilidade no futuro, os habitantes no entorno têm que compreender que cada árvore é um ser vivo e que merece carinho e cuidados similares aos de um animal de estimação.


Biologia cada vez mais importante no IPCC

31 de maio de 2010
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Na sexta-feira (29) recebi uma mensagem dizendo que fui indicado como um dos Lead Authors para escrever o capítulo 27 (Central and South America) do (IPCC) Intergovernmental Panel of Climatic Change. A indicação é feita pelos governos de todo o mundo e meu curriculum foi escolhido com mais 311 pesquisadores a partir da análises de 1208 curriculuns de cientistas de todo o mundo que foram indicados por seus governos. Esta é uma indicação muito possivelmente relacionada aos trabalhos que venho realizando desde que entrei na USP em 2006 com as respostas de plantas às Mudanças Climáticas.  Desde que entrei no IB eu trouxe verba do Ministério da Ciência e Tecnologia e da Eletronorte e com estas eu e meu grupo montamos o LAFIECO (Laboratório de Fisiologia Ecológica de Plantas), o primeiro laboratório de biologia exclusivamente dedicado a observar os efeitos biológicos de mudanças climáticas no Brasil, que eu saiba. Em 2008 editei o livro “Biologia e Mudanças Climáticas no Brasil”, escrevi com colegas e alunos vários trabalhos e capítulos sobre o assunto. O LAFIECO abrigou os principais experimentos que meus alunos de pós-graduação realizaram e que estão gerando as principais teses sob a minha orientação que sairão em 2010 e 2011. Estas teses trarão dados pioneiros sobre as respostas de plantas amazônicas ao aumento de CO2, de árvores da Mata Atlântica em alto CO2 junto com alta temperatura e também de plantas importantes para a agricultura brasileira, como cana-de-açúcar, feijão e soja. Motivei a montagem de pelo menos dois laboratórios iguais em Minas Gerais, um dos quais já está funcionando e colaborando com o LAFIECO.

Em 2009, um dos trabalhos do LAFIECO com a planta amazônica mata-pasto (Senna reticulata) que é tema de tese de minha aluna Adriana Grandis e tem a colaboração da aluna Bruna Arenque, ganhou o prêmio de melhor trabalho de fotossíntese no Congresso Nacional de Fisiologia Vegetal.

Agora, com a indicação para participar como redator de um dos capítulos do IPCC, o LAFIECO e o IB ganham repercussão mundial na área de impactos das mudanças climáticas sobre a biologia em nossa região.

Três artigos de revisão recentes exemplificam o trabalho que temos feito, que têm a colaboração de meus alunos de pós-graduação e uma pós-doutoranda do IB. Eles podem ser encontrados nos seguintes links:

Respostas fisiológicas de plantas amazônicas de regiões alagadas às mudanças climáticas globais

A Dinâmica da Floresta Neotropical e as Mudanças Climáticas Globais

Impacts of climate changes on crop physiology and food quality

Escrevi também um ensaio para o Volume 1 da Revista da Biologia do IB chamado:

A insustentável leveza da complexidade

Me parece que esta indicação é interessante, uma vez que são poucos os pesquisadores que podem opinar em um órgão tão importante e influente em nível mundial.

O IPCC foi fundado por meteorologistas e a entrada da opinião de biólogos de nossa região é um ótimo sinal de que a biologia tem grande importância nesta questão.

Marcos Buckeridge


ETANOL CELULÓSICO: ONDE ESTAMOS E PARA ONDE VAMOS?

11 de junho de 2009
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Marcos S. Buckeridge (msbuck@usp.br)

Hoje saiu na Folha de São Paulo (Ciência na pgA17) uma reportagem do reporter Eduardo Geraque sobre uma das estratégias que o Brasil tem para atingir o etanol celulósico (no manual da Folha usam álcool de celulose, que é a mesma coisa), o Centro de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE), que fica no Campus do Laboratório Nacional Luz Sincrotron (LNLS), em Campinas. O CTBE já está funcionando desde 2008 e o diretor presidente é o Marco Aurélio Pinheiro Lima. Eu serei, em breve, o Diretor Científico do CTBE e fui convidado pelo Marco Aurélio para montar o plano de ciência do CTBE. No meu plano de ciência pretendo enfocar a ciência transdisciplinar, que já vem sendo chamada de “ciência do modo 2”. Que eu saiba, este será o único centro do gênero no Brasil.

A transdiciplinaridade consiste em aplicar a ciência de forma interdisciplinar (ou seja onde as disciplinas interagem), mas com o objetivo de resolver uma grande questão colocada pela sociedade. A busca do etanol celulósico é uma delas e as mudanças climáticas globais é outra. Para entender melhor as vantagens da transdisciplinaridade eu postei um artigo sobre isto neste blog.

Outras inciativas são o BioEn-FAPESP, programa pioneiro que também ajudei a montar e ajudo a coordenar,  INCT to Bioetanol, do qual eu sou o coordenador e congrega 29 laboratórios em 6 estados brasileiros e a Embrapa Agroenergia, que fica em Brasília.

Há outras iniciativas em andamento. O Estado de São Paulo vai investir cerca de 100 milhões nas três universidades (USP, UNESP e UNICAMP) especificamente para a montagem de centros de bioenergia.

Pelas minhas contas, já estamos acima de 1 bilhão de reais (1/2 milhão de dólares) em bioenergia, pelo menos. Os EUA estão investindo bem mais. Por exemplo, só o investimento no Energy Biosciences Institute (EBI), do Department of Energy e da British Petroleum, foi de 500 milhões de dólares e os times já estão trabalhando nas melhores universidade americanas. Apesar de haver competição, haverá mercado para Brasil e EUA e nós estamos cooperando com o EBI, por exemplo, aprendendo com eles algumas coisas que não sabemos e ensinando algumas que eles não sabem.

Nós estamos na frente por vários motivos. Um deles é que já usamos a cana desde a época do descobrimento para produzir açúcar e já em 1920 nós havíamos começado a produção de etanol. Leia a história no meu artigo na Netrópicas

As iniciativas no Brasil para chegar ao etanol são muitas. Publiquei um artigo nesta semana onde descrevo as iniciativas. O artigo está na minha coluna no site da Revista Pesquisa FAPESP, a Neotrópicas. O artigo chama-se “A bioenergia que nos aproxima”.

Apesar de toda essa “sede” tenológica, é preciso lembrar  tanto no caso do CTBE, quando no BioEn, estamos tomando o cuidado de desenvolver tecnologias que sejam ambientalmente e socialmente sustentáveis. Nos dois programas, há pesquisas sendo desenvolvidas sobre os impactos. É preciso que a produção de biocombustíveis seja feita com responsabilidade. Veja a entrevista que dei isso para a Revista New Scientist em 23 de maio de 2009. Lá eu defendo uma idéia que chamo de caminho do meio. Também tenho um artigo publicado na revisa do LabJor da UNICAMP, onde as explicações são mais profundas.


SÓ COM INVESTIMENTOS EM CIÊNCIA E TECNOLOGIA SAIREMOS FORTALECIDOS DESSA CRISE

29 de janeiro de 2009
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Abaixo segue uma carta elaborada por vários coordenadores de Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia, sobre os cortes sugeridos para a ciência no orçamento Brasileiro. Depois do texto há uma lisa dos autores.

A possibilidade de corte de recursos do Ministério de Ciência e Tecnologia, se consumado, irá interromper o ciclo virtuoso de progresso científico, iniciado há mais de duas décadas. Um sólido desenvolvimento científico e tecnológico é, nos dias de hoje, o caminho mais consistente para a riqueza e a soberania das nações. Os países que apresentaram maior desenvolvimento social e econômico no período que se seguiu à Segunda Grande Guerra foram aqueles que, independentemente do seu modelo político, implementaram uma política consistente e de longo prazo para o aprimoramento de suas pesquisas. O Brasil nas últimas três décadas vem exercendo uma política consistente na área de Ciência, cujo resultado é hoje medido pelos índices expressivos de sua produtividade científica. Mais importante, o aumento da qualificação do parque brasileiro de pesquisa e a inovação tecnológica dela decorrente vêm gerando riquezas ao país. Temas estratégicos para o desenvolvimento nacional, tais como o aumento da produtividade agrícola, a descoberta de novos campos de petróleo e gás, o desenvolvimento de fontes alternativas de energia, o aprimoramento da tecnologia aeronáutica, as estratégias inteligentes de conservação ambiental, as pesquisas em genética e os novos procedimentos de tratamento de moléstias de nosso povo (incluindo a utilização de células-tronco, a produção de novos medicamentos e a instrumentação médica) possuem, todos eles, a “impressão digital” dos pesquisadores brasileiros. Nesse cenário, vemos com grande preocupação a possibilidade de corte de recursos do Ministério de Ciência e Tecnologia, que, se consumado, irá interromper o ciclo virtuoso de progresso científico, iniciado há mais de duas décadas. Um retrocesso nesse momento resultará em conseqüências negativas em médio e longo prazo. Oportunidades de pesquisa serão perdidas, pesquisadores jovens e experientes migrarão para países que lhes ofereçam melhores oportunidades, e um grande número de estudantes perderá a oportunidade de ingressar em atividades de pesquisa. O atual governo dos Estados Unidos da América do Norte isentou de cortes a área de Ciência e Tecnologia, mesmo estando no centro da grave crise econômica. Com isso, os EUA elegem o desenvolvimento da Ciência e da Tecnologia como um instrumento poderoso para vencer as vicissitudes da atual conjuntura e promover o bem estar social. Temos convicção de que o Congresso Nacional, fórum maior das decisões dos destinos da Nação, será sensível a esta questão e assegurará as condições para o contínuo progresso científico e tecnológico de nosso País, recompondo as previsões orçamentárias para o ano de 2009, que foram elaboradas com sobriedade e alinhadas com as metas do Plano de Ação de Ciência, Tecnologia e Inovação para o Desenvolvimento Nacional. Somente com investimentos em ciência e tecnologia sairemos fortalecidos dessa crise.

Prof. Dr. Colombo Celso Gaeta Tassinari Coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Técnicas Analíticas para Exploração de Petróleo e Gás

Prof. Dr. Euripedes Constantino Miguel Coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Psiquiatria do Desenvolvimento para crianças e adolescentes

Prof. Dr. Glaucius Oliva Coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Biotecnologia Estrutural e Química Medicinal em Doenças Infecciosas

Prof. Dr. João Evangelista Steiner Coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Astrofísica

Prof. Dr. Jorge Elias Kalil Filho Coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Investigação em Imunologia

Prof. Dr. José Antonio Frizzone Coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Pesquisa e Inovação em Engenharia da Irrigação

Prof. Dr. José Carlos Maldonado Coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Sistemas Embarcados Críticos

Prof. Dr. José Roberto Postali Parra Coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Semioquímicos na Agricultura

Prof. Dr. Marcos Silveira Buckeridge Coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol

Profa. Dra. Mayana Zatz Coordenadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Células-Tronco em Doenças Genéticas Humanas

Profa. Dra. Nadya Araújo Guimarães Coordenadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos da Metrópole

Profa. Dra. Ohara Augusto Coordenadora do Instituto Nacional de Ciência Tecnologia de Processos Redox em Biomedicina-Redoxoma

Prof. Dr. Paulo Hilário Nascimento Saldiva Coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Análise Integrada do Risco Ambiental

Prof. Dr. Roberto Mendonça Faria Coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Eletrônica Orgânica

Prof. Dr. Roberto Passetto Falcão Coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Células-Tronco e Terapia Celular

Prof. Dr. Sérgio França Adorno de Abreu Coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Violência, Democracia e Segurança Cidadã

Prof. Dr. Vanderlei Salvador Bagnato Coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Óptica e Fotônica


AS DIMENSÕES DA CULTURA, SEGUNDO HOFSTEDE

3 de janeiro de 2009
1 Comentário

Marcos Buckeridge (msbuck@usp.br)

Em relação ao meu comentário sobre o livro do Gladwell, fiz uma investigação sobre as DIMENSÕES DA CULTURA, que são colocadas em forma de índices, propostos pelo Geert Hofstede. As dimensões são definidas e discutidas no primeiro capítulo de seu livro. Abaixo vai um resumo do que é cada índice e comentários sobre o Brasil nesse aspecto. Veja que interessante:

Índice de Distância do Poder (IDP): até que ponto os membros menos poderosos na sociedade e instituições aceitam ou esperam que o poder seja dividido de forma desigual. No livro do Gladwell, ele explora bastante este índice para explicar a ocorrência de acidentes aéreos quando os pilotos são de cultura asiática. O Brasil (acima de 70) pode ser comparado com os EUA (abaixo de 40)  e é mais parecido com o México (acima de 80)

 Índice de Individualismo (IDV): há dois extremos opostos, que valorizam o individual ou o coletivo. O lado individualista acredita que as ligações entre os indivíduos são fracas e menos importantes. Na sociedade individualista, cada um “cuida do seu” . Em sociedades coletivistas, acredita-se que tudo é integrado em forma de grupos coesos, incluindo a família, que continua protegendo as pessoas em troca de lealdade. Nesse quesito, o Brasil tem um índice bem baixo (cerca de 25) que pode ser comparado com o Reino Unido e dos EUA (acima de 80). Eu gostaria de ver uma análise de diferentes regiões do Brasil. É bem possível que variem bastante em respeito a este índice.

Índice de Masculinidade (MAS): este índice (que tem como oposto a feminilidade) está relacionado com o “estilo” masculino que uma sociedade pode ter. Quanto maior o MAS, mas assertiva e competitiva a sociedade. Quanto menor (ou seja mais para o lado feminino) isto pode indicar uma sociedade mais cuidadosa. Nesse quesito, o Brasil é parecido com os EUA e Reino Unido. A comparação mais interessante deste índice é com os países escandinavos, que são “extremamente femininos” e contrastam com a América latina que é mais “masculina”

Índice de Evitação de Incerteza (IEV): este índice lida com a tolerância que uma sociedade tem à incerteza e à ambiguidade. Te a ver com a aquilo que chamamos de “verdade”. O IEV indica o quanto uma sociedade se sente ou não confortável com situações novas, desconhecidas e surpreendentes. Sociedades com alto IEV tentam evitar a incerteza com leis e regras restritas, incluindo medidas de segurança. Do lado oposto, culturas com baixo IEV são bem mais tolerantes e aceitam melhor as críticas e as novidades. Pessoas dessa cultura são geralmente mais frios em relação à expressão de sentimentos.

Índice de Orientação de Longo-prazo (IOL): este índice se refere ao quanto uma sociedade se orienta para ações de curto e longo prazo. Ela foi incluída entre as dimensões de Hofstede posteriormente por outro autor, mas ele acabou adotando na edição de 2001 de seu livro. O estudo foi feito com estudantes de 23 países usando um questionário feito por cientista chineses. Não tem a ver com a verdade, mas somente com a orientação de cada cultura. Valores altos de IOL se associam com perseverança e os baixos com o peso da tradição. Este é um caso interessantíssimo, pois aqui vemos como a América Latina (e o Brasil não difere) tem um valor extremamente alto de IOL (cerca de 80) enquanto o Reino Unido e os EUA estão na faixa de 20.  Estes números parecem concordar com a ideia do Brasil como “o país do futuro”

Numa época globalizada como a que vivemos, índice como estes podem ser bastante úteis, especialmente se temos que lidar com pessoas de diferentes culturas. Mas tome cuidado. O Geert Hofstede deixa muito claro que não podemos classificar pessoas, mas somente culturas usando estas dimensões. Portanto, o argumento: “mas o meu tio não se encaixa no padrão brasileiro e portanto estes índice não valem” não cabe, pois estaríamos usando um caso para explicar o todo. Em outras palavras, estes índices refletem as propriedades emergentes das diferentes culturas. Seus valores provavelmente variaram e variam historicamente. O Brasil, na minha opinião, tem mudado muito nos últimos 20-30 anos. A cultura é algo muito complexo, que envolve tudo o que ocorre em uma sociedade. 

Assim, pode usar, mas com muito cuidado!

Sobre os índices do Brasil, a informação pode ser obtida no site da ITIM.Ao lado esquerdo da página deste site você pode acessar os dados de vários países. Meus comentários foram feitos somente com base nesses pequenos textos e em outros textos do Hofstede que consegui obter na internet. Há uma entrevista com ele, que tem um link em seu próprio site, que é realmente muito interessante.

Nos próximos artigos no site da Revista Pesquisa FAPESP e aqui no Blog, vou discutir as mudanças climáticas globais em relação às dimensões da cultura de Hofstede.


NEGAÇÃO COLETIVA: UMA FORMA “HUMANA” DE REAGIR AO AQUECIMENTO GLOBAL

3 de janeiro de 2009
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Marcos Buckeridge (msbuck@usp.br)

Uma das formas de evitar ter de se ocupar com problemas como as mudanças climáticas, que não incomodam agora, mas só no futuro, é exercendo o que é chamado de “negação coletiva” em que as pessoas fingem que um problema não existe para não ter que resolvê-lo. Acabei de publicar um artigo sobre isto na Revisa da Biologia, do IB-USP. Vai o link para baixar o pdf artigo gratuitamente.