Blog do Buckeridge

AQUECIMENTO GLOBAL E CONSUMO | 9 de janeiro de 2009

Marcos S. Buckeridge (msbuck@usp.br)

Durante os últimos anos, a especulação sobre a relação entre o aumento desproporcional na concentração de gás carbônico na atmosfera terrestre, que é conseqüência da queima de combustíveis fósseis, e os efeitos climáticos globais, se tornou um fato. Como conseqüência, um novo ramo da ciência surgiu. Em inglês se chama Global Change Biology e apesar de não estarmos usando oficialmente estes termos em revistas científicas em português por enquanto, poderíamos chamar este ramo de Biologia das Mudanças Climáticas.

Antes de entrarmos na Biologia das Mudanças Climáticas propriamente dita, temos que compreender melhor alguns conceitos sobre o funcionamento da atmosfera de nosso planeta. Em primeiro lugar é preciso entender o que é o efeito estufa e para isso, sugiro ao leitor assistir a uma animação que criamos para explicar este fenômeno. Se quiser se aprofundar mais no assunto, editei um livro sobre isto que foi lançado em dezembro.

Um fato de que temos que nos conscientizar é que o gás carbônico em excesso na atmosfera, produzido pelo nosso estilo de vida, está mesmo relacionado com as mudanças climáticas e que este não é, de forma alguma, um problema trivial. Nossa geração terá que enfrentar (e resolver) problemas muito sérios que podem até mesmo se tornar catastróficos, caso não façamos algo rapidamente.

Uma das formas de adotar uma atitude pró-ativa em relação a este problema é simplesmente passarmos a compreender melhor os diversos sistemas de produção de energia que estão por trás dos produtos que consumimos.  Parece fácil, mas após um exame mais acurado percebemos que estamos atolados até o pescoço em nosso sistema de produção e praticamente tudo o que consumimos implica em emissão de carbono sujo. Carbono sujo se refere à parcela de carbono emitido em forma de gás carbônico a partir de um processo que envolva a degradação de petróleo ou de seus derivados. O carbono produzido dessa forma é acrescentado à atmosfera e aumenta artificialmente a concentração de gás carbônico enquanto o carbono limpo é o carbono que já estava na atmosfera e foi reciclado. Pode-se alegar, por exemplo, que quando se usa um automóvel a álcool, a energia utilizada é toda limpa. Porém, há uma parcela que não, pois a cana para ser plantada e cortada envolveu o uso de pessoas (que são consumidores e produtores de carbono sujo de alguma forma) e/ou máquinas que utilizam derivados de petróleo para funcionar. O mesmo ocorre para cortar a cana e depois para distribuir o álcool produzido. O próprio processo de produção do álcool na usina não é completamente limpo.

Teremos que utilizar diversas estratégias diferentes para evitar a emissão de CO2 se quisermos obter um efeito significativo de maior escala.

Atualmente, o Ministério de Meio Ambiente financia projetos de rotulagem de produtos fabricados de forma eficiente e ecologicamente corretos. Isto denota o fato de que a atividade de consumo deixou realmente de ser uma ação automática relacionada apenas ao desejo e mais recentemente à saúde do consumidor. Consumir se tornou bem mais complexo, pois os rótulos logo irão trazer diversos elementos que terão que ser balanceados pelo consumidor antes da decisão de comprar.

O consumidor tem hoje que fazer uma série de perguntas antes de consumir. Após as perguntas óbvias como se tenho dinheiro para comprar, se o design me agrada etc, algumas perguntas a mais seriam: 1) este produto faz bem à minha saúde? 2) dá empregos localmente? 3) o produto faz parte de um programa geral que possibilita o desenvolvimento sustentável? 4) a matéria prima provém de alguma atividade prejudicial à sociedade organizada?

Tais perguntas surgiram recentemente e estão diretamente relacionadas com o esgotamento dos recursos naturais e o aumento desgovernado da população humana no planeta.  Por trás destas perguntas está o fato de que se não equilibrarmos o uso dos recursos naturais no planeta, a civilização como a conhecemos simplesmente não sobreviverá. A pergunta 4 tem  uma relação direta com a questão do CO2 e as mudanças climáticas.  As questões relacionadas à eficiência de produção são importantes para o Brasil, na medida em que este país vem se tornando um dos pólos industriais mais importantes da América Latina. Mas o Brasil tem ainda uma outra grande responsabilidade: a manutenção dos biomas tropicais. Pensando apenas no contexto do problema do gás carbônico, as florestas Amazônica e Atlântica são de importância especial, pois constituem um dos maiores sumidouros de CO2 no Planeta Terra.

A situação atual poderia ser descrita da seguinte forma: 1) ainda temos grande parte da Floresta Amazônica em pé, mas a invasão humana é iminente. Queimadas da floresta nativa trocam as paisagens por pastagens ou cidades; 2) Já destruímos grande parte da Mata Atlântica estamos destruindo rapidamente o cerrado. As soluções imediatas para os dois problemas seriam: 1) parar as queimadas na Amazônia e intensificar os programas de conservação e uso sustentável; 2) regenerar pelo menos parte das florestas e cerrado perdidos. Estas duas atitudes já seriam passos enormes no auxílio ao problema do CO2 e as mudanças climáticas, pois deixaríamos de perder capacidade de seqüestrar carbono; 3) desenvonver completamente as novas tecnologias de produção de combustíveis renováveis como o bioetanol.

Comentário Post Scriptum – vejam que interessantes as animações sobre consumo, poluição e aquecimento global


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