Blog do Buckeridge

Há riscos em não aceitarmos a existência do aquecimento global? Sim, o de não nos importarmos com o meio ambiente. | 5 de janeiro de 2009

Marcos Buckeridge (msbuck@usp.br)

Acusações têm sido feitas à forma alarmista com que os cientistas destacam o combate ao aquecimento global. Um argumento é que depois de alguns anos poderemos ter gasto uma montanha de dinheiro para resolvermos um problema inexistente.

Mas há alguns fatores a considerar antes de nos levantarmos contra a correlação entre o aumento de CO2, o aquecimento global e as mudanças climáticas globais.

No relatório do IPCC, há críticas à modelagem, mas o próprio relatório explica muito bem como os modelos que foram utilizados. Além disso, foram usadas diferentes técnicas para construir os cenários futuros. Os modelos indicam tendências (não a verdade) e foi tomado o cuidado de nominar os níveis de probabilidade de impacto em cada cenário. Como um dos revisores do último relatório, eu contribui com criticas à forma como eles haviam explicado os impactos prováveis. No fim eles mudaram a maneira de se referirem aos diferentes níveis de influência dos efeitos do aquecimento global sobre o planeta. Além disso, boa parte do relatório não é só modelagem e tampouco se trata de um pequeno conjunto de dados. É uma compilação de dados produzidos por trabalhos científicos feitos em todo o mundo.

A sensação ao olhar os relatórios é que há um foco grande na parte de ciência do clima, mas isto pode ser explicado pelo fato de que o IPCC começou com os meteorologistas, que reuniram seus dados para entender o que estava acontecendo em nível global. Com o tempo, mais e mais biologia, sociologia, economia e dados de outras áreas foram sendo adicionados.

De qualquer forma, é um documento que apresenta uma das compilações científicas mais espetaculares da história da humanidade.

O relatório também é muito interessante em sua forma de divulgação, colocando tudo na internet, livre para quem quiser ler. O relatório extenso não precisa ser lido por todos, a não ser que se tenha interesse em alguma parte específica. Há relatórios para os fazedores de políticas públicas que podem ser lidos por qualquer um. O site do Ministério da Ciência e Tecnologia de Brasil já fez inclusive traduções para o português dos relatórios para os fazedores e políticas publicas, de forma que não há nem a desculpa da língua para não ler.

Um perigo grande é o de tirarmos conclusões a partir de leituras secundárias e com base nisto mudarmos a direção de planos estratégicos para as gerações futuras. Isto pode ser muito mais perigoso para a humanidade do que gastar bilhões para melhorar a situação do meio ambiente, diminuindo os impactos sobre a biodiversidade e ainda desenvolver novas tecnologias para a produzir bioenergia, aliás, estratégicas para o Brasil.

Além disso,  a literatura científica é farta de dados que confirmam estas tendências. Aqui no Brasil, ainda estamos engatinhando.

Entre as poucas coisas que temos está um livro que organizei com colegas e foi lançado recentemente. Nele autores de várias subáreas da biologia examinam os possíveis impactos do aquecimento global em suas respectivas áreas.

Se considerarmos que as atividades humanas não são a razão por trás do aquecimento global, ainda assim temos que aceitar o fato de que o CO2 está aumentando na atmosfera. Como a relação entre a concentração atmosférica de CO2 e a temperatura estão relacionados, a temperatura não deixará de aumentar e as conseqüências previstas provavelmente não mudarão muito.

Será que vale a pena investir bilhões para melhorar o ambiente a ajustar a matriz energética mundial para um sistema menos poluidor e mais eficiente?

Isto me parece óbvio e acho que vale a pena a qualquer tempo e em quaisquer condições, com ou sem mudanças climáticas globais.



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