Blog do Buckeridge

A CONSTRIÇÃO DO DESENVOLVIMENTO. Ou, Deus pode ajudar um ateu a pensar, graças a Deus! | 5 de janeiro de 2009

Marcos Buckeridge (msbuck@usp.br)

 Lendo o Deus: um delírio do Dawkins, na pf 65 me deparei com o seguinte: “O Deus deísta é um físico que encerra toda a física, o alfa e ômega dos matemáticos, a apoteose dos projetistas: um hiperengenheiro que estabeleceu as leis e as constantes do universo, ajustou-as com uma precisão e uma antevisão extraordinárias, detonou o que hoje chamamos de big bang, aposentou-se e ninguém nunca mais soube dele.

Primeiro alguns comentários:

1)    esta é uma das idéias mais maçônicas com a qual me deparei. A idéia deste deus me parece ser exatamente o que a Maçonaria Chama de Grande arquiteto do Universo;

2)    não concordo que ninguém nunca mais ouviu falar dele. O cara é o mais falado. Só hoje (05 de janeiro de 2009) o Google dá 59 milhões de hits, enquanto o pobre “diabo” só tem 4.250 mil! Meros 7,2%.

A leitura deste parágrafo me remeteu a uma outra que ainda não tinha consciência.           

            Temos buscado a origem da vida em algum ponto nos últimos 8 bilhões de anos quando moléculas de aminoácidos se combinaram formando moléculas mais complexas que possibilitaram o aparecimento de estruturas organizadas e capazes de produzirem réplicas de si próprias. Sei que é simplista, mas estou tentando ser conciso.

Gostaria de colocar uma idéia sobre o que eu acho que poderia ser a origem da vida, pois me parece que há algumas confusões. Para isto, terei que fazer algumas digressões e retornar ao texto principal.

Digressão 1 :

Temos discutido a idéia de que a vida apareceu quando a capacidade de auto-organização se tornou possível, certo? Deste conceito nós chegamos à conclusão de que a auto-organização seria o que o Maturana e Varela chamaram de autopoiese. Concordo que a capacidade de produção de réplicas (mesmo que não exatamente iguais, e ainda bem que não!) seja talvez o próprio processo de auto-organização.

Discutimos também que o processo de auto-organização exige fluxo de informação. Em outras palavras, o nível de comunicação entre os átomos de uma pedra não forma redes hierárquicas, mas redes ao acaso ou então, se houver cristais, redes altamente repetitivas, com as células cristalinas se repetido a intervalos fixos.

No entanto, numa célula viva, as redes são dinâmicas e hierárquicas, mudando o padrão de hierarquia continuamente.

Portanto, a vida não é só auto-organização, mas um tipo de organização em redes hierárquicas dinâmicas que se intercomunicam. Talvez, inclusive, possamos dizer que quando um organismo morre, ele, na realidade, só passa a informação adiante (ou comunica) o seu padrão de organização em redes hierárquicas dinâmicas (vou chamar de ORHD para facilitar). Se for assim, poderíamos dizer que a vida pode ser vista somente através da comunicação. O que a reprodução dos organismos passa para as outras gerações é a chave de como manter um padrão ORHD em si próprio e se isto persistir e conseguir se moldar ao ambiente (que se considerarmos dentro do conceito de GAIA seria um ORHD), se manterá no sistema. Note que o sistema é, na realidade, um só: um ORHD está dentro do outro, que está dentro do outro até chegar na biosfera, ou seja, GAIA. Agora saiamos da digressão.

Na idéia do Deus matemático do Dawkins está embutida a idéia de que a vida, na realidade, pode ter começado no big bang. Explico:

Para que o sistema ORHD discutido na digressão 1 exista, foi preciso um planejamento. Sei que isto é contra as idéias da mutação ao acaso e soa religioso bla bla bla bla bla bla, mas, não estou evocando um deus não. Estou dizendo que qualquer coisa no universo, para se organizar de qualquer forma (e a auto-organização na forma de ORHD não dependeria de um deus no sentido teísta, certo?) são necessárias leis. São elas que determinam como os elementos do ORHD devem se comunicar. Aí vai a digressão 2.

Digressão 2:

Para explicar porque os ORHDs têm que apresentar uma dinâmica, chamo aqui a atenção para a idéia do John Holland (no livro Emergence) de que as propriedades emergentes de um sistema dependem de uma característica que ele denomina “constraining generation mechanism”. Eu, uns dois anos antes de ler o livro, tinha inventado algo que chamo de “constrição do desenvolvimento”, que essencialmente é a mesma coisa. Fiquei, portanto, maravilhado quando encontrei a idéia no livro do Holland, explicada com rigor matemático e tudo. Bom, qualquer sistema que se desenvolve tem que seguir um conjunto de regras que são regidas pelos chamados autômatos celulares (veja em um dos meus artigos uma explicação sobre autômatos celulares). Um exemplo simples: se decidirmos construir uma casa e determinarmos como primeira regra que nossa casa terá 100 m2, automaticamente estaremos excluindo todos os projetos acima e abaixo de 100 m2, certo? Há aí uma constrição enorme de possibilidades. Agora, se na segunda regra concordarmos que a casa terá cinco cômodos (sala, cozinha, banheiro e dois quartos) excluiremos todos os projetos com mais de um banheiro, apenas um quarto, sem sala etc. A constrição severa que se impõe sobre o processo de desenvolvimento o molda e resulta em algo determinado pelas regras assumidas.

Por outro lado, quebra das regras estabelecidas podem ocorrer dependendo o estado do sistema. É aí que eu acho que entra a idéia da comunicação como sendo uma espécie de “éter”, ou o “meio” onde os elementos flutuam em um sistema. Um exemplo de como isto muda: numa situação normal, ao viajar para o litoral de São Paulo, é proibido o tráfego pelo acostamento. No entanto, em situações extremas, como um feriado prolongado onde milhares de carro se dirigem para lá ao mesmo tempo, esta regra pode ser quebrada para fazer com que o fluxo de carros seja facilitado. Isto quer dizer que as regras podem se alterar dependendo o estado do sistema. Este é o estado dinâmico a que me referi na digressão 1. Agora voltemos ao texto principal:

 Muito bem! Se admitirmos que a vida consiste de elementos que se comunicam conforme regras pré-estabelecidas, mas que têm uma dinâmica que nos permite pensar em supra e sub-regras que brotam conforme a situação e/ou o nível de emergência, qualquer processo de desenvolvimento começaria quando as regras passam a existir.

Com base nisto, a vida teria começado não quando os sistemas autopoiéticos (ou com padrões ORHD) passaram a existir, mas quando as regras foram criadas.

Agora, se pensarmos que o universo deve ter se iniciado quando as regras matemáticas para a sua existência passaram a existir, então primeiro veio a matemática que quando integrada deu origem à física, em seguida à química e através da evolução pré-biótica, deu origem à autopoiese.

Como conclusão, a vida teve início não como a biologia quer descrever, ou seja com os aminoácidos etc, mas quando as regras para a existência de sistemas ORHD foram criadas. Isto admite inclusive que qualquer sistema autopoiético no universo é originário do mesmo sistema de regras inicial que seria a matemática.

Mas será que as leis da matemática são fechadas? Ou seja, há um conjunto de leis fixas?

Em oposição a isto, poderíamos pensar que o aparecimento de novas regras seria infinito. Pode-se criar qualquer regra ou conjunto de regras que se queira? Ou o universo em si já apresenta constrição?

Há uma continuidade espacial das regras? Ou seja, elas valem para todo o universo? Ou há lugares no universo em que elas mudam?

Sabemos que há situações em que as regras mudam. Será que poderíamos considerar as cordas e as singularidades espaço-temporais como “dobras” nestas  regras? Se for assim,  que significado isto tem para os sistemas autopoiéticos? Será que há autopoiese no nível quântico? Ou acima da velocidade da luz? Será que podem haver sistemas ORHD nestes níveis de emergência?

Comentários Post Scriptum – Há uma discussão interessante sobre as questões levantadas pelo Dawkins que podem ser apreciadas em um vídeo do U-tube. Aqui vai um link para o vídeo que é uma discussão entre o Dawkins e o McGrath.  Está no Blog do Charles Fernando Gomes.

Leia a réplica de Wanderley dos Santos, postada em 11 de janeiro de 2009


1 Comentário »

  1. […] texto abaixo é uma réplica e síntese ao artigo CONSTRIÇÃO DO DESENVOLVIMENTO…, que postei em 5 de […]

    Pingback por EMERGÊNCIA E CONSTRIÇÃO EVOLUTIVA – UMA RÉPLICA « Blog do Buckeridge — 11 de janeiro de 2009 @ 21:02


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