Blog do Buckeridge

SOBRE O LIVRO “FORA DE SÉRIE” (OUTLIER) de Malcolm Gladwell | 2 de janeiro de 2009

Marcos Buckeridge (msbuck@usp.br)

Está entre os melhores que já li em termos de informação e novidade, apesar da forma do livro não ter sido bem pensada. Na realidade, há três livros, um sobre as razões para os gênios se tornarem gênios, outro sobre erros em aviação e uma parte sobre a educação. No fim (epílogo) há uma autobiografia que na minha opinião é desnecessária. O livro poderia ter somente as duas primeiras partes e terminar, pois a parte sobre educação, apesar de interessante, mereceria um livro inteiro, com mais pesquisa. Mesmo assim é interessante. Um comentário feito na Nature desta semana (18 a 25 de Dezembro volume 456) por Michael Bond na pg 874 vai exatamente no mesmo sentido Independente do problema de forma, o livro, especialmente na primeira parte, trás informações realmente muito interessantes.Uma delas é a lei das 10 mil horas, da qual dificilmente alguém irá discordar. Gladwell diz que são necessárias, em média, 10 mil horas trabalhando num assunto para realmente masterizá-lo. Cita como exemplos os Beatles que ficaram em Hamburgo trabalhando por 18 meses e tocando 5 horas por noite. Eles realmente aperfeiçoaram suas técnicas e ainda “afinaram” o grupo para trabalhar em conjunto como ninguém. É obvio que há necessidade de mesclar talento com trabalho e o segredo parece estar aí, ter (ou detectar) o seu talento e combiná-lo com trabalho árduo, sem deixar de mostrar os resultados ao mundo. É lógico que deve haver exemplos de pessoas que obtiveram grande sucesso e não tinham tanto talento assim ou não trabalharam tanto assim, mas estas provavelmente se encontram nos cantos dos gráficos de distribuição estatística. Outro exemplo interessante é o do Mozart. Não chequei as informações dadas no livro, mas o que é dito é que biógrafos acreditam que as obras iniciais feitas desde os 5 anos foram escritas pelo pai de Mozart. Aos 14, já com cerca de 10 mil horas de trabalho, as obras dele começam a aparecer. Até os 21 anos as obras de Mozart não teriam ainda grandes inovações e é depois dessa idade que realmente as melhores obras começam a ser compostas. Escrevi um artigo sobre um personagem fascinante, o Lineu, que denota este mesmo quadro de trabalho árduo mesclado com talento e, principalmente, mostrando os resultados ao mundo! Interessante não! Não digo que devamos acreditar nisso sem restrições, pois estes casos também poderiam pertencer aos cantos dos gráficos estatísticos. Mas, pelo menos para mim, estas ideias são intuitivas. Sem talento, teremos que trabalhar muito mais para alcançar alguém que tem o talento para facilitar as coisas. Esta parte vale a pena ler, sem dúvida nenhuma! Já a parte sobre os acidentes aéreos e a linguagem em diferentes culturas, apesar de ligada ao assunto, é outra visão dos outliers. Nesta parte, o que ficou marcado para mim foi a confirmação do que um amigo meu (o Minhoto) sempre diz: “avião não cai, é derrubado”. O Gladwell dá uma explicação muito interessante sobre os acidentes, dizendo que na realidade é uma sequência de erros e não UM único erro. No caso dos acidentes aéreos, segundo o autor seria geralmente uma combinação de tempo ruim e piloto cansado. Ele coloca uma pitada interessante em casos em que acidentes ocorreram em maior proporção, como numa empresa que se chamava Korean Air. Esta pitada é a forma que diferentes culturas em lidar com a hierarquia. Ele explica que há um índice de distância do poder (IDP) que cada povo tem em nível diferente (veja artigo sobre estes índices neste blog). No caso dos EUA, p.ex. o IDP é baixo e com isto, um copiloto, ao detectar que algo vai mal no voo, irá desafiar o piloto e questioná-lo. Em casos de pilotos coreanos, em que o IDP é alto, o copiloto não tem como questionar a autoridade do piloto e o índice de acidentes é maior. Isto despertou a minha curiosidade sobre o IDP do Brasil e ele foi citado uma só vez no livro, como sendo alto. Na realidade um dos mais altos do mundo. Fiquei surpreso com isto, mas se pensarmos bem, é isso mesmo. A nossa hierarquia é forte mesmo. E isto é muito importante porque se considerarmos empresas privadas, estatais e a própria administração do pais como naves em curso, se o IDP alto pode ser tão prejudicial assim, para evitar erros muitos dos problemas que temos tido em pegar rotas erradas em nível de país poderiam estar relacionados com isto. Vale a pena dar uma olhada nesta parte do livro e pensar a respeito. Há muitas outras coisas interessantes no livro. Realmente vale a pena conferir. Apesar do problema na estrutura, a criatividade e novidade no livro me levaram a guardá-lo na pateleira dos 20+ na minha biblioteca.


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